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O escritor que já não escrevia #10

por cineteratura100mg, em 22.07.14

 

Momentos depois, derrotado, deixou cair os ombros. Depois, ele próprio também se deixou cair de joelhos no chão pejado de papéis. Fechou as mãos na cabeça e de seguida, muito devagar, deitou-se em posição fetal. Encostou a cara coberta por uma barba de muitos dias ao chão frio. Um dos olhos fechados pela pressão do chão, o outro a ver de lado a destruição que causara na sala, os papéis rasgados, os livros abertos e estragados, os retratos dentro das molduras partidas. Deixou-se ficar ali tanto tempo que acabou por adormecer.  Também poderia ser morrer.

Quando acordou, horas depois, recordou por breves instantes o que fizera e doeu-lhe na alma, onde quer que ela estivesse, dentro do seu corpo, todo ele também dorido e massacrado por horas absurdas de inércia, má alimentação e demasiados cigarros.

Depois levantou-se e abriu a janela. Lá fora o dia principiava. Havia ainda o cinzento mas o cheiro verde da árvore em frente trazia para dentro da sala promessas de sol. Apeteceu-lhe um café. Ainda teria algures moedas para um café. E para um jornal. Veria os classificado. Depois daria uma volta pela praça na esperança de poder trocar dois dedos de conversa com os velhos de olhos pequeninos às vezes tristes outras mais alegres e peles enrugadas por vidas intensas e cheias de histórias e que, sentados nos bancos metálicos, esboroam tranquilamente  miolo de pão para dar aos pombos.

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