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O escritor que já não escrevia #9

por cineteratura100mg, em 27.06.14

 

Depois do banho o Escritor deitou-se. Queria dormir. Ou esquecer. Poderia ser uma as duas. Ou até as duas. No entanto, nem dormiu nem esqueceu. Uma hora depois de se ter deitado, desistiu. Vestiu umas calças velhas e em tronco nu foi até à sala. Preparou uma bebida forte e postou-se no meio da sala.  Olhou em volta. As manchas de humidade no tecto não pesavam sobre ele. Meia noite. O relógio do pêndulo  nunca o deixava ficar mal. Na estante encostada à parede dormiam os seus livros. Há mais de vinte anos que, modestamente é certo, vivia do que escrevia. Agora a conta no banco tinha pouco mais que o dinheiro de uma renda e a página do word continuava em branco.

Por momentos sentiu que o mundo desabava sobre ele. Da garganta saiu-lhe um uivo. Fechou as mãos com tanta força que se feriu. Depois com as mãos feridas tirou da estante todos os seus livros, arremessou-os longe, amarfanhou todos os seus papéis. rasgou as suas notas. Tudo isto numa fúria destrutiva e implacável. Quando não havia mais nada para tirar do sitio, ficou ali de pé, no meio do caos, a arfar, a baba a sair-lhe da boca e a cabeça vazia.

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