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pausa para café #1

por cineteratura100mg, em 13.08.14

Uma destas noites sonhei que poderia viver assim. Com o assim, quero eu dizer viver da escrita. Sim, eu gosto de escrever. Às vezes até gosto muito de escrever. Já houveram dias que me apaixonei por aquilo que escrevi. Outros houveram que não. Mas isso, creio que nem todos os dias o pão saí bonito do forno.
No meu sonho eu escrevia sempre. Escrevia de manhã e à tarde e à noite esempre que me apetecia e e ainda podia dar passeios largos pela praia quando o dia finda e a noite ainda não caiu. Não sei se vendia livros nem ninguém veio pedir-me autógrafos. Não tenho presente a parte pragmática do sonho. Também, pouco importa já que nos sonhos não é preciso comer e a roupa nunca se gasta. Tenho só presente que escrevia e o prazer que tinha com o acto.
Sonhar faz bem e ter conhecido a sensação - os sonhos podem por vezes ser bem reais - de fazer da vida o que se gosta, também. Na verdade, que seria de nós sem os sonhos? Todos os sonhos. Os que temos a dormir mas também os que temos acordados. 

Cláudia Moreira

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poema #1

por cineteratura100mg, em 08.08.14

o tempo.

o tempo que voa e a vida também

se veste de outono e  fios de prata.

o tempo.

conheço-o de o ver passar

na minha janela.

o tempo.

fecho-lhe a porta que ele teima

em tranpôr para me abraçar.

o tempo.

não existe.

é mera palavra de dicionário.

se existir, lanço-o no céu

como um papagaio de papel.

há-de então perder-se no vento

que despenteia a copa das árvores

e anuncia a tempestade.

o tempo.

não existe em mim,

mas fora de mim.

 

cláudia moreira

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O escritor que já não escrevia #10

por cineteratura100mg, em 22.07.14

 

Momentos depois, derrotado, deixou cair os ombros. Depois, ele próprio também se deixou cair de joelhos no chão pejado de papéis. Fechou as mãos na cabeça e de seguida, muito devagar, deitou-se em posição fetal. Encostou a cara coberta por uma barba de muitos dias ao chão frio. Um dos olhos fechados pela pressão do chão, o outro a ver de lado a destruição que causara na sala, os papéis rasgados, os livros abertos e estragados, os retratos dentro das molduras partidas. Deixou-se ficar ali tanto tempo que acabou por adormecer.  Também poderia ser morrer.

Quando acordou, horas depois, recordou por breves instantes o que fizera e doeu-lhe na alma, onde quer que ela estivesse, dentro do seu corpo, todo ele também dorido e massacrado por horas absurdas de inércia, má alimentação e demasiados cigarros.

Depois levantou-se e abriu a janela. Lá fora o dia principiava. Havia ainda o cinzento mas o cheiro verde da árvore em frente trazia para dentro da sala promessas de sol. Apeteceu-lhe um café. Ainda teria algures moedas para um café. E para um jornal. Veria os classificado. Depois daria uma volta pela praça na esperança de poder trocar dois dedos de conversa com os velhos de olhos pequeninos às vezes tristes outras mais alegres e peles enrugadas por vidas intensas e cheias de histórias e que, sentados nos bancos metálicos, esboroam tranquilamente  miolo de pão para dar aos pombos.

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O escritor que já não escrevia #9

por cineteratura100mg, em 27.06.14

 

Depois do banho o Escritor deitou-se. Queria dormir. Ou esquecer. Poderia ser uma as duas. Ou até as duas. No entanto, nem dormiu nem esqueceu. Uma hora depois de se ter deitado, desistiu. Vestiu umas calças velhas e em tronco nu foi até à sala. Preparou uma bebida forte e postou-se no meio da sala.  Olhou em volta. As manchas de humidade no tecto não pesavam sobre ele. Meia noite. O relógio do pêndulo  nunca o deixava ficar mal. Na estante encostada à parede dormiam os seus livros. Há mais de vinte anos que, modestamente é certo, vivia do que escrevia. Agora a conta no banco tinha pouco mais que o dinheiro de uma renda e a página do word continuava em branco.

Por momentos sentiu que o mundo desabava sobre ele. Da garganta saiu-lhe um uivo. Fechou as mãos com tanta força que se feriu. Depois com as mãos feridas tirou da estante todos os seus livros, arremessou-os longe, amarfanhou todos os seus papéis. rasgou as suas notas. Tudo isto numa fúria destrutiva e implacável. Quando não havia mais nada para tirar do sitio, ficou ali de pé, no meio do caos, a arfar, a baba a sair-lhe da boca e a cabeça vazia.

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coisas minhas #1

por cineteratura100mg, em 17.06.14

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O Escritor que já não escrevia #8

por cineteratura100mg, em 03.06.14

 

 

Descalçou-se ainda na rua e ficou por momentos a olhar os sapatos gastos e sujos. Da boca do Escritor saíram em voz alta muitas palavras. Vernáculos e palavrões. O Escritor pegou nos sapatos e descalço atravessou a rua. Abriu o contentor do lixo semi-destruído e muito grafitado e atirou-os lá para dentro. Depois voltou a casa, atento ao chão, já que agora caminhava descalço. Subiu as escadas devagar, sem sapatos e com o tabaco debaixo do braço. O desalento tinha tomado conta dele. Meteu-se na banheira e tomou um banho demorado. Deixou-se ficar debaixo da água quente muito tempo. Era preciso lavar os pés sujos, o corpo suado mas sobretudo as mágoas que viviam agora por inteiro dentro daquele corpo. O Escritor encostou-se à parede da casa de banho, a água a cair pela cabeça, pelas costas, deixando rastos de agua na pele. Fechou os olhos por instantes e ficou só assim, a sentir a água quente e a tentar esvaziar o cérebro de toda a sujeira que parecia agora morar lá dentro.  

 

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O escritor que já não escrevia #7

por cineteratura100mg, em 27.05.14

 

Durante o dia fumou cinquenta e cinco cigarros, até se dar conta de que já não tinha mais nenhum. Gastou cento e sete post-it que acabaram amarfanhados no lixo e não comeu nada além de uma sopa já ligeiramente rançosa que estava no frigorifico. Eram nove da noite quando saiu de casa. Não mudou de roupa. por baixo da casaco coçado levava a mesma roupa do dia anterior. Ele cheirava a cigarro e a odores corporais. Estava escuro porque a cidade naquela parte era muito menos luminosa. Um cão defecava debaixo do plátano que cobria de sombras a porta do Escritor. Ao olhar, o Escritor pensou que a sua vida cheirava exactamente da mesma maneira que os dejectos do cão.

Foi comprar dez volumes de cigarros. O homem do quiosque ainda olhou inquisidoramente para o Escritor mas ele não lhe deu troco. Não queria que lhe perguntassem do livro que não estava capaz de escrever. Ao voltar a casa esqueceu-se do cão e pisou algo que estava no chão.

 

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O escritor que já não escrevia #6

por cineteratura100mg, em 22.05.14

 

De manhã acordou estremunhado por um sonho bom. Sonhou que tinha escrito um livro inteiro durante a noite. Saltou da cama e foi até ao computador verficar a veracidade dos factos. Poderia, eventualmente, não ser um sonho, mas sim uma memória. O monitor estava negro. Cada vez menos esperançoso, porque entretanto os pés frios no chão de madeira comida pela tempo, iam fazendo despertar o Escritor do sono. Mexeu no rato e devagar o monitor ganhou luz. A página continuava em branco. Um misto de desilusão e cansaço atingiu o Escritor. Tinha sido um sonho, bom, mas um sonho. Sentou-se novamente à secretária. Acendeu um cigarro. Ainda estava em jejum e sentiu uma pontada de dor no estômago. Olhou a página em branco por entre o fumo azulado do cigarro. De olhos franzidos tentou fixar todo aquele branco, como se estivesse à espera que fosse do branco que a ideia lhe fosse por fim surgir.

 

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O escritor que já não escrevia #5

por cineteratura100mg, em 20.05.14

 

Adormeceu. Quando acordou, mais ou menos pelas quatro da manhã, tinha o pescoço dorido e os pés gelados. Levantou-se a custo e arrastou-se até à cama ainda por fazer. Na verdade a cama estava por fazer desde a última vez que mudara os lençóis. O Escritor naquele momento, com os olhos inchados do sono e do álcool que agora bebia todas as noites, não estava preocupado com os lençóis. O computador ficou ligado ainda com a página em branco. As folhas de papel, que tinham agora manchas de gordura, estavam em cima do teclado.

O Escritor tirou a roupa já deitado e antes de fechar os olhos pensou que seria bom sonhar com alguma coisa interessante e escrevivel, palavra que ele usava frequentemente mas que não existia em nenhum dicionário conhecido.

 

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O escritor que já não escrevia #4

por cineteratura100mg, em 16.05.14

 

 

O Escritor sentou-se novamente em frente ao computador. A página continuava em branco e ele continuava com a inspiração tão estagnada como uma poça de água morta depois das chuvas. Agora tinha um copo na mão cheio de um liquido acobreado onde dançavam duas pedras de gelo. Ele bebia devagar apreciando o gosto intenso do malte. Pôs os pés em cima da secretária, cruzados e descalços. Olhou o tecto e pensou que as manchas de humidade estavam a alastrar muito rapidamente. O tecto era um tecto bonito, antigo e aristocrático. Em tempos tinha sido perfeito, motivo de grande admiração dos tertulianos que ali se reuniam às sextas, com os seus relevos de gesso floreados. Agora já tinham caído vários pedaços que ele depois varria para o lixo sem grande pesar.

 

 

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